terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Prelúdio de uma Primavera Triste

O sol é grande, caem co' a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d' alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu' em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d' amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m' eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!


Sá de Miranda

Prelúdio de uma Primavera Triste - Margaret Mather, de Edward Weston, 1920

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O vazio que sentes...

Stefan Okolowicz, The last happening, 1970

O vazio que sentes, cada vez mais,
é o dos traidores.
Também os monumentos, por dentro, estão vazios,
com as entranhas cheias de óxido e morte:
escuros e apodrecidos pela história,
é tão sinistro o seu interior
como arrogante o gesto que o personagem
traça no ar.
Conforme os amigos nos vão traindo
 - e a morte é também uma traição –
assim nos vamos convertendo em monumentos.
Por fora fica um resto de eloquência,
sobretudo ao falar com alguém jovem,
mas a voz ressoa no vazio,
perdida entre os ferros de uma trama oculta
que se desfolha em leves capas de óxido.


Joan Margarit (trad. de Albino Martins)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Fantasia

Se meu desejo só é sempre ver-vos,
que causará, senhora, qu' em vos vendo
assi me encolho logo, e arrependo,
que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
no pensamento meu, porque em querendo
cuidar em vós, se vai entristecendo,
nem ousa meu espírito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?

Não sei entender o que em mim mesmo vejo.
Mas que tudo é amor entendo e creio,
o no qu' entendo e creio, nisso espero.

António Ferreira

  Fantasy in F minor, D. 940 (Op.103) for piano duet by Maria JOAO on Grooveshark

domingo, 20 de janeiro de 2013

Life is a Killer

Só são tuas - na verdade - a memória e a morte,
a memória que apaga e desfigura
e a sombra da morte que aguarda.
Só lembranças fantasmais e o nada
repartem entre si tua herança sem destino.
Depois de contratos sórdidos, mentiras,
de gestos inoportunos e palavras
- irreais palavras ilusórias -,
só um testamento de cinza
que o vento move, espalha e desordena.

Juan Luis Panero (n.1942)
Tradução: José Bento

William Burroughs



sábado, 19 de janeiro de 2013

O Estudante Empírico

Eu, estudante empírico
Fecho o livro contemplo
Eis o globo, o planisfério terrestre,
O planisfério celeste,
O redondo horizonte, a ilusão dos firmamentos.
E a nossa existência
Eis o compasso, o esquadro, a balança, a pirâmide,
o cone, o cilindro, o cubo, o peso, a forma,
a proporção, as equivalências.
E o nosso itinerário.
Saem das suas caixas os mistérios
Desenrola-se o mapa dos ossos com esses nomes;
O sangue desenha sua floresta-azul;
Cada órgão cumpre um trabalho enigmático:
Estamos repletos de esfinges certeiras.
E o nosso corpo.
E os dinossauros são como carros de triunfo, reduzidos à armação;
e no olho profundo do microscópio a célula se anuncia.
E o nosso destino
O professor escreve no quadro o Alfa e o Ómega.
A luz de Sírius ainda lança escadas em contínua cascata.
E lentamente subo e fecho os olhos
e sonho saber o que não se sabe
simplesmente acordado.
Grande aula, a do silêncio.

Traça a reta e a curva, a quebrada e a sinuosa.
Tudo é preciso. De tudo viverás.
Cuida com exatidão da perpendicular e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo, traçarás perspectivas,
Projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.
Construirás os labirintos impermanentes que sucessivamente habitarás.
Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.
Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.

“Até quando terás, minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar, a força de estar sempre – insegura – segura como a flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?”


Cecília Meireles, "Poesia Completa" – vol. 4

Cristina Garcia Rodero

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