Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Por que tão longe ir pôr o que está perto-
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
Odes de Ricardo Reis, Fernando Pessoa
sábado, 31 de agosto de 2013
sábado, 13 de julho de 2013
quarta-feira, 3 de julho de 2013
sábado, 25 de maio de 2013
Sombra...
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| Fan-Ho, Sombra que se aproxima, 1954 |
Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...
Homem, que fazes tu?
Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a beleza que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...
Eugénio de Castro (1867-1944)
Gloriae Mundi
Eugénio de Castro,
Fan-Ho,
Poesia
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Sem causa...
Sem causa a Infância ri, sem causa chora:
Incauta se despenha a mocidade;
Sacode o jugo, e nela a liberdade,
A caça, o jogo, o amor, tudo a namora.
Das honras o varão se condecora;
Tudo é nele ilusão, tudo vaidade:
Junta Tesouros a avarenta idade;
Diz mal do nosso, e ao tempo andando adora.
Tormento é toda a vida, é toda enganos:
Quando uns afectos vence a novos corre,
E tarde reconhece os próprios danos:
Porque enfim se a prudência nos socorre,
Ditada na lição de longos anos,
Quando se sabe, então é que se morre.
Paulino António Cabral, Abade de Jazente (1719-1789)
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| Frank Scherschel, 1946 |
Gloriae Mundi
Abade de Jazente,
Alegorias da Vida,
Frank Scherschel,
Poesia
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