sábado, 27 de setembro de 2014

Metamorphoses (1912)

domingo, 22 de junho de 2014

Morte em Veneza

De muitas coisas se pode morrer
em Veneza
De velhice de susto
de peste

ou de beleza

Jorge de Sousa Braga

Morte em Veneza, de Luchino Visconti, 1971

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Devia morrer-se de outra maneira

"Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal
comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas. Traje de passeio».
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos
todos assistir à despedida.
Apertos de mão quentes. Ternura de calafrio.
«Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos...
em seguida, os lábios... depois, os cabelos...) a carne,
em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis..."

José Gomes Ferreira

Kalliope, Amorphous Indreams, 2012



sexta-feira, 18 de abril de 2014

Morte e Ressureição

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.


Natália Correia, Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, 1999

Imogen Cunningham


sábado, 23 de novembro de 2013

Danças Palacianas

domingo, 20 de outubro de 2013

As pessoas instantâneas
























Quando a morte cai sobre as pessoas
é porque tem as asas cansadas
de dar voltas ao mundo.

Escolhe, hesitante, um dos seus cantores.
Escolhe quem, matinalmente, se cumprimenta.

A morte um dia esquece e desce
sobre os mesmos reverentes.

Esqueceu tudo o que dissera.
Ou fingiu que esqueceu tudo.

Alguém parou misteriosamente de falar.

E o silêncio quer dizer: “Acabou tudo.”
Quer dizer: “venham comigo até aquelas grutas!”

Agora finjam que estão velhos.
E que ninguém está nada triste.

Olhem para as vossas pernas,
não há pernas!

Nem mãos,
excepto para tocar em coisas indescritíveis.

As crianças que morriam.

Vou viver para a neve com os meus filhos
mergulhar nos rios soturnos e profundos
em segundos.

Por entre as algas e os peixes que prendiam
os braços das crianças que agarravam
os polvos misteriosos que ensinavam
a nadar os que mereciam.
Se a mim viesse algum dos mortos que ensinasse
a morrer a quem vivesse
a nadar a quem andasse
a dormir a quem falasse

Sem parar.

Imitaria a vida que vivesse
esse monstro que ensinasse

Que morresse.

Que matasse.

Sem matar.


António Ladeira

sábado, 28 de setembro de 2013

Se corre devagar o tempo...

Se corre devagar o tempo, e o tempo
não corre, em que relógio contarei
os segundos que se demoram quando as
horas se precipitam, ou o amanhã

que nunca mais chega neste hoje
que já passou? Mas o tempo só o é
quando o perdemos; e ao ver que
é tarde, não se volta atrás, nem

as voltas que o tempo dá o voltam
a fazer andar. Por isso é que o tempo
nos dá tempo para o ter, se ainda

houver tempo; e se tivermos de o perder,
nenhum tempo contará o tempo que se
gastou para saber o que se perdeu, ou ganhou.


Nuno Júdice


sábado, 31 de agosto de 2013

Uns, com os olhos postos passado...

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto-
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.


Odes de Ricardo Reis, Fernando Pessoa

sábado, 13 de julho de 2013

In The Green Wild

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Atrás dos Tempos Outros Tempos Vêm...

Ilustração da Divina Comédia, Códice Urbinate Latino



















Atrás dos Tempos Outros Tempos Vêm by Fausto on Grooveshark

sábado, 25 de maio de 2013

Sombra...

Fan-Ho, Sombra que se aproxima, 1954























Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu?
Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a beleza que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...


Eugénio de Castro (1867-1944)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sem causa...


Sem causa a Infância ri, sem causa chora:
Incauta se despenha a mocidade;
Sacode o jugo, e nela a liberdade,
A caça, o jogo, o amor, tudo a namora.

Das honras o varão se condecora;
Tudo é nele ilusão, tudo vaidade:
Junta Tesouros a avarenta idade;
Diz mal do nosso, e ao tempo andando adora.

Tormento é toda a vida, é toda enganos:
Quando uns afectos vence a novos corre,
E tarde reconhece os próprios danos:

Porque enfim se a prudência nos socorre,
Ditada na lição de longos anos,
Quando se sabe, então é que se morre.


Paulino António Cabral, Abade de Jazente (1719-1789)

Frank Scherschel, 1946

sábado, 30 de março de 2013

Paixão

sexta-feira, 22 de março de 2013

Alegoria

V. Quem chama dentro em mi? - T. O tempo ousado.
V. Entraste sem licença? - T. Tenho-a há muito.
V. Que me queres? - T. Que me ouças. - V. Já te escuto.
T. Prometes de me crer? - V. Fala avisado.

T. Errada vás. - V. Também tu vás errado.
T. Essa é condição minha. - V. Esse é meu fruto.
T. Tu és mulher descuidada. - V. És velho astuto.
T. Erro sem dano meu. - V. Assás tens dado.

T. Ai, vida como passas? - V. Perseguida.
T. De quem? - V. De ti. - T. O Tempo o gosto nega.
V. O tempo é ar. - T. A Vida é passatempo.

V. Tu já nem Tempo és. - T. Nem tu és já Vida.
V. Vai para louco. - T. Vai-te para cega.
- Vedes como se vão a Vida e o Tempo?


D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666)

Edward Steichen, 1925

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Prelúdio de uma Primavera Triste

O sol é grande, caem co' a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d' alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu' em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d' amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m' eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!


Sá de Miranda

Prelúdio de uma Primavera Triste - Margaret Mather, de Edward Weston, 1920

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O vazio que sentes...

Stefan Okolowicz, The last happening, 1970

O vazio que sentes, cada vez mais,
é o dos traidores.
Também os monumentos, por dentro, estão vazios,
com as entranhas cheias de óxido e morte:
escuros e apodrecidos pela história,
é tão sinistro o seu interior
como arrogante o gesto que o personagem
traça no ar.
Conforme os amigos nos vão traindo
 - e a morte é também uma traição –
assim nos vamos convertendo em monumentos.
Por fora fica um resto de eloquência,
sobretudo ao falar com alguém jovem,
mas a voz ressoa no vazio,
perdida entre os ferros de uma trama oculta
que se desfolha em leves capas de óxido.


Joan Margarit (trad. de Albino Martins)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Fantasia

Se meu desejo só é sempre ver-vos,
que causará, senhora, qu' em vos vendo
assi me encolho logo, e arrependo,
que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
no pensamento meu, porque em querendo
cuidar em vós, se vai entristecendo,
nem ousa meu espírito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?

Não sei entender o que em mim mesmo vejo.
Mas que tudo é amor entendo e creio,
o no qu' entendo e creio, nisso espero.

António Ferreira

  Fantasy in F minor, D. 940 (Op.103) for piano duet by Maria JOAO on Grooveshark

domingo, 20 de janeiro de 2013

Life is a Killer

Só são tuas - na verdade - a memória e a morte,
a memória que apaga e desfigura
e a sombra da morte que aguarda.
Só lembranças fantasmais e o nada
repartem entre si tua herança sem destino.
Depois de contratos sórdidos, mentiras,
de gestos inoportunos e palavras
- irreais palavras ilusórias -,
só um testamento de cinza
que o vento move, espalha e desordena.

Juan Luis Panero (n.1942)
Tradução: José Bento

William Burroughs



sábado, 19 de janeiro de 2013

O Estudante Empírico

Eu, estudante empírico
Fecho o livro contemplo
Eis o globo, o planisfério terrestre,
O planisfério celeste,
O redondo horizonte, a ilusão dos firmamentos.
E a nossa existência
Eis o compasso, o esquadro, a balança, a pirâmide,
o cone, o cilindro, o cubo, o peso, a forma,
a proporção, as equivalências.
E o nosso itinerário.
Saem das suas caixas os mistérios
Desenrola-se o mapa dos ossos com esses nomes;
O sangue desenha sua floresta-azul;
Cada órgão cumpre um trabalho enigmático:
Estamos repletos de esfinges certeiras.
E o nosso corpo.
E os dinossauros são como carros de triunfo, reduzidos à armação;
e no olho profundo do microscópio a célula se anuncia.
E o nosso destino
O professor escreve no quadro o Alfa e o Ómega.
A luz de Sírius ainda lança escadas em contínua cascata.
E lentamente subo e fecho os olhos
e sonho saber o que não se sabe
simplesmente acordado.
Grande aula, a do silêncio.

Traça a reta e a curva, a quebrada e a sinuosa.
Tudo é preciso. De tudo viverás.
Cuida com exatidão da perpendicular e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo, traçarás perspectivas,
Projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.
Construirás os labirintos impermanentes que sucessivamente habitarás.
Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.
Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.

“Até quando terás, minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar, a força de estar sempre – insegura – segura como a flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?”


Cecília Meireles, "Poesia Completa" – vol. 4

Cristina Garcia Rodero

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Tão cedo passa tudo quanto passa!



                                               
Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
           Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
           E cala. O mais é nada.

 3-11-1923

 Ricardo Reis

Marcel Marceau,"Juventude, Maturidade, Velhice e Morte", 1958, fotografia de Henri Dauman

sábado, 5 de janeiro de 2013

Fade To Grey

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Goddess Eyes

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Liebesleid

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Soneto CXXIII

Arnold Boecklin, 1872

Não te gabes ó Tempo de que mudando venho:
Pirâmides ergueste e com maior potência,
mas pra mim nada têm de novo nem de estranho,
de coisa há muito vista são só outra aparência.
Contudo admiramos, em nossas vidas breves,
quanto velho por novo tu já nos tens vendido,
e que se ajuste ao nosso desejo lhe prescreves
mais que o pensarmos nós tê-lo antes conhecido.
Mas não me surpreendem passado nem presente
e a ti e a teus arquivos eu desafio audaz,
mentem os teus registos, o que nós vemos mente
que a tua eterna pressa maior ou menor faz:
  Voto de ser fiel pra sempre faço aqui,
  mau grado a tua foice e apesar de ti.


William Shakespeare
Tradução: Vasco Graça Moura

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"Oui, c'est la folie"

sábado, 15 de dezembro de 2012

Pandora

Pandora, de Alma-Tadema, 1881





















Pandora, de William Waterhouse, 1898

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Quando se vir com água o fogo arder

Nadia Alamri



















Quando se vir com água o fogo arder,
Juntar-se ao claro dia a noite escura,
E a terra colocada lá na altura
Em que se vêem os céus prevalecer;

Quando Amor à Razão obedecer,
E em todos for igual uma ventura,
Deixarei de ver tal formosura,
E de amar deixarei depois de a ver.

Porém não sendo vista esta mudança
No mundo, porque, enfim, não pode ver-se,
Ninguém vendar-me queira de querer-vos.

Que basta estar em vós minha esperança,
E o ganhar-se a minha alma ou o perder-se,
Para dos olhos meus nunca perder-vos.


Luís de Camões

sábado, 8 de dezembro de 2012

O tempo presente e o tempo passado

Barbara Parmet, Meeting On The Shore


















O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo das galerias que não percorremos
Em direção à porta que jamais abrimos
Para o roseiral.
Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.
Mas com que fim
Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas.
Não sei.
Outros ecos
Se aninham no jardim.
Seguiremos?
Depressa, disse o pássaro, procura-os, procura-os
Na curva do caminho.
Pela primeira porta,
Aberta ao nosso mundo primeiro, aceitaremos
A trapaça do tordo?
Em nosso mundo primeiro,
Lá estavam eles, dignificados e invisíveis,
Movendo-se imponderáveis sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E o pássaro cantou, em resposta
À inaudita música oculta na folhagem.
E um radiante olhar impressentido trespassou o espaço,
porque as rosas
Tinham a aparência de flores contempladas.
Lá estavam eles, como nossos hóspedes, acolhidos e acolhedores.
Assim, caminhamos, lado a lado, em solene postura,
Ao longo da alameda deserta, rumo à cerca de buxos,
Para mergulhar os olhos no tanque agora seco.
Seco o tanque, concreto seco, calcinados bordos,
E o tanque inundado pela água da luz solar,
E os lótus se erguiam, docemente, docemente,
A superfície flamejou no coração da luz,
E eles atrás de nós, refletidos no tanque.
Passou então uma nuvem, e o tanque esvaziou.
Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de crianças,
Maliciosamente escondidas, a reprimir o riso.
Vai, vai, vai, disse o pássaro: o género humano
Não pode suportar tanta realidade.
O tempo passado e o tempo futuro,
O que poderia ter sido e o que foi,
Convergem para um só fim, que é sempre presente. . .

T. S. Eliot, "Four Quartets 1: Burnt Norton"

 

sábado, 24 de novembro de 2012

Máscaras V

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Começaste muito antes do caixão

Claude Verlinde


Começaste muito antes do caixão.
Não remonto propriamente ao berço,
nem à velha que rezava o terço,
enquanto respondias, grão a grão.

Antes de seres «o morto» que és agora,
antes de teres vigência e estatuto,
há muito que não perdias pela demora
de vires encher o esquife devoluto.

Entra, pois, que estás em tua casa
por direito mais que natural.
Cautela com essa perna! Fecha a asa!
És um chato de morto, um anormal!

Acabou-se a farândola! Vai lá
tirar-me da cara esses cosméticos.
Há um que espera, queixo contra a pá,
e uns que já não podem de tão sérios.

Morto perfeito, ó meu só retrato
de gaveta em gaveta, na desarrumação,
a morte não te pede o grande acto
e já é tarde para dares o não.


Alexandre O'Neill

Andreas Paul Weber (1893-1980)

sábado, 17 de novembro de 2012

Algumas flores

James Christensen, A Primeira Rosa


algumas flores
teimam em viver
apesar do tempo
apesar do peso
apesar da morte
apesar de algumas
que teimam em morrer
apesar de tudo.

Alice Ruiz


Edmund J. Sullivan, 1859

sábado, 3 de novembro de 2012

La Folie

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dança Macabra

Dança da Morte - Alemanha séc. XVIII



Danse Macabre by Saint-Saens on Grooveshark

sábado, 27 de outubro de 2012

Cacida da Mulher Estendida

John Swannel, 1985

Despida ver-te é recordar a terra.
A terra lisa, limpa de cavalos.
A terra sem um junco, forma pura
ao futuro cerrada: argêntea fímbria.

Despida ver-te é compreender a ânsia
da chuva que procura débil talhe,
ou a febre do mar de imenso rosto
sem a luz encontrar de sua face.

O sangue soará pelas alcovas
e virá com espada fulgurante,
mas tu não saberás onde se oculta
o coração de sapo ou a violeta.

Teu ventre é uma luta de raízes,
teus lábios, uma aurora sem contorno,
por sob as rosas tépidas da cama
os mortos gemem esperando vez.

Federico García Lorca, in 'Divã do Tamarit'
Tradução de Oscar Mendes

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Houses


People who are afraid of themselves
Multiply themselves into families
And so divide themselves
And so become less afraid.

People who might have to go out
Into clanging strangers’ laughter,
Crowd under roofs, make compacts
To no more than smile at each other.

People who might meet their own faces
Or surprise their own voices in doorways
Build themselves rooms without mirrors
And live between walls without echoes.

People who might meet other faces
And unknown voices round corners
Build themselves rooms all mirrors
And live between walls all echoes.

People who are afraid to go naked
Clothe themselves in families, houses,
But are still afraid of death
Because death one day will undress them.


A. S. J. Tessimond

Clarence John Laughlin, The House of the Past, 1947

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"Oh what's that in the hollow, so pale, I quake to follow?"

 Oh What's That in the Hollow, Edward Robert Hughes, 1893

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

- Sorrindo interiormente,
Co'as pálpebras cerradas
Às águas da torrente
Já tão longe passadas.

- Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

Passar o estio, o Outono,
A poda, a cava e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva

Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua.

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...

Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fracturam-se as maxilas...

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.


Camilo Pessanha

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Que amor sigo?...

Que amor sigo? Que busco? Que desejo?
Que enleo é este vão da fantasia?
Que tive, que perdi, quem me queria?
Quem me faz guerra, contra quem pelejo?

Foi por encantamento o meu desejo,
E por sombra passou minha alegria,
Mostrou-me Amor dormindo o que não via,
E eu ceguei do que vi, pois já não vejo.

Fez à sua medida o pensamento
Aquela estranha e nova fermosura,
E aquele parecer quasi divino.

Ou imaginação, sombra ou figura,
É certo e verdadeiro meu tormento,
Eu morro do que vi, do que imagino.

Francisco Rodrigues Lobo (c.1574?-1621)





domingo, 21 de outubro de 2012

Remember me when I am gone away

Remember me when I am gone away,
Gone far away into the silent land;
When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you plann'd:
Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.

Christina Georgina Rossetti

Harold Feinstein 1950s
gif de Nicolas Monterrat

sábado, 13 de outubro de 2012

Tomorrow, and tomorrow...

“Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death.
Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury
Signifying nothing.”

William Shakespeare, Macbeth


A. Scarpulla

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Sonata para Violino


de Jean-Marie Leclair (1697-1764)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A morte virá e terá os teus olhos

A morte virá e terá os teus olhos –
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês cada manhã
quando, sob ti só, pendes
no espelho. Oh, que esperança,
nesse dia saberemos, também nós,
que és a vida e és o nada.

A morte tem um olhar para todos.
A morte virá e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
ressurgir uma face morta,
como ouvir os lábios fechados.
Desceremos mudos ao abismo.


Cesare Pavese (trad. de José Carlos Brandão)

Vladimir Clavijo

domingo, 7 de outubro de 2012

O que é a morte?

Charles Nevols


O que é o caminho?
anúncio de partida
escrito em folhas
que o pó desenhou.

O que é o pó?
futuro do corpo.

O que é um espelho?
uma segunda face
um terceiro olho.

O que é uma rosa?
cabeça a decapitar.

O que é a morte?
carro que leva
do útero da mulher
ao útero da terra.

O que é o anoitecer?
discurso de despedida.

O que é a lágrima?
guerra perdida pelo corpo.

O que é o desespero?
descrição da vida na língua da morte.

O que é a coincidência?
fruto na árvore do vento
caindo entre as mãos
sem se saber.

O que é o não sentido?
doença que mais se propaga.

O que é a memória?
casa habitada só
por coisas ausentes.

O que é a poesia?
navios que navegam, sem portos.

O que é a história?
um cego a tocar tambor.

O que é a sorte?
dado
na mão do tempo.

O que é a linha reta?
soma de linhas tortas
invisíveis.

O que é o tempo?
veste que usamos
sem poder tirar.

O que é a melancolia?
anoitecer no espaço do corpo.

O que é o sentido?
início do não sentido
e seu fim.

O que é a velhice?
planta que cresce em duas direções:
a aurora da infância
a noite da morte.

O que é viver?
caminhar sem pausa
rumo ao anoitecer.


trechos do poema "Guia para viajar pelas florestas do sentido", de Adonis

  Durme, Hermosa Donzella (Berceuse Sefardi, Rhodes) by Montserrat Figueras, Jordi Savall, Arianna Savall, Ferran Savall, Pedro Estevan on Grooveshark

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Do not go gentle into that good night

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.


Dylan Thomas

Edvard Munch, Love and Pain, 1893-94

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Soneto da Rosa

Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.

E da flagrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, e agora

Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude.

Para que o sonho viva de certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.

Vinicius de Moraes


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Memento Mori

Fotografia post-mortem da era vitoriana

A rapariga presente nesta fotografia está morta. Se olharmos mais atentamente, conseguimos distinguir uma base atrás dos seus pés, a partir daí, um suporte com grampos na cintura e no pescoço, sustentam o cadáver. A roupa estará desapertada na parte de trás. Os braços estão sustentados por arames a fim de se manterem no lugar - note-se a posição das mãos.As pupilas estão pintadas sobre as pálpebras fechadas.

As origens das fotografias memento mori  confundem-se com a origem da própria fotografia. No século XIX, os retratos post-mortem faziam parte do luto pela perda de um ente querido, especialmente de uma criança ou um bebé. Esta prática era transversal a toda a sociedade e com a invenção do daguerreótipo, em 1839, ter uma recordação fotográfica do falecido tornou-se mais rápido e barato do que mandar pintar um retrato.



Estas fotografias, mais do que confrontarem os vivos com a inevitabilidade da morte, constituíam uma recordação, já que, não raras as vezes, eram a única imagem que a família tinha daquele que partira desta vida. Geralmente, o morto era arranjado de maneira a parecer ainda vivo, ou num sono pacífico e sereno, livre de todo o  sofrimento terreno. Numa fase mais tardia, as fotografias post-mortem já incluíam o corpo no caixão, não havendo esforço para simular uma pose "viva".

Na sociedade actual, esta prática é considerada por muitos como grotesca, vulgar e sensacionalista, ou seja, tabu, em nítido contraste com a sensibilidade dos que, no passado, assim prestavam homenagem aos entes queridos. Esta mudança cultural revela-nos um maior desconforto social com a morte.

domingo, 23 de setembro de 2012

Femme et Chatte

Elle jouait avec sa chatte;
Et c'était merveille de voir
La main blanche et la blanche patte
S'ébattre dans l'ombre du soir.

Elle cachait - la scélérate!
- Sous ces mitaines de fil noir
Ses meurtriers ongles d'agate,
Coupants et clairs comme un rasoir.

L'autre aussi faisait la sucrée
Et rentrait sa griffe acérée,
Mais le diable n'y perdait rien...

Et dans le boudoir où, sonore,
Tintait son rire aérien,
Brillaient quatre points de phosphore.

Paul Verlaine

Jean Harlow


MULHER E GATA

Ela brincava com a gata
E era admirável ver as duas,
A branca mão e a branca pata,
Brincando à noite, na penumbra.

Ela escondia - a celerada!
- Sob as mitenes de fio escuro
As assassinas unhas de ágata,
Claras, cortantes, como um gume.

Fingia-se a outra adoçada
E retraía a garra afiada,
Mas o diabo nada perdia...

E no toucador retinia
O som de aéreas gargalhadas
E quatro pontos fosforesciam.

 Tradução: Fernando Pinto do Amaral

domingo, 12 de agosto de 2012

The Crunch

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Twenty-eight naked young women...

Twenty-eight naked young women bathed by the shore
Or near the bank of a woodland lake
Twenty-eight girls and all of them comely
Worthy of Mack Sennett’s camera and Florenz Ziegfield’s
Foolish Follies.
They splashed and swam with the wondrous unconsciousness
Of their youth and beauty
In the full spontaneity and summer of the fieshes of
awareness
Heightened, intensified and softened
By the soft and the silk of the waters
Blooded made ready by the energy set afire by the
nakedness of the body,
Electrified: deified: undenied.
A young man of thirty years beholds them from a distance.
He lives in the dungeon of ten million dollars.
He is rich, handsome and empty standing behind the linen curtains
Beholding them.
Which girl does he think most desirable, most beautiful?
They are all equally beautiful and desirable from the gold distance.
For if poverty darkens discrimination and makes
perception too vivid,
The gold of wealth is also a form of blindness.
For has not a Frenchman said, Although this is America…
What he has said is not entirely relevant,
That a naked woman is a proof of the existence of God.
Where is he going?
Is he going to be among them to splash and to laugh with them?
They did not see him although he saw them and was there among them.
He saw them as he would not have seen them had they been conscious
Of him or conscious of men in complete depravation:
This is his enchantment and impoverishment
As he possesses them in gaze only.
…He felt the wood secrecy, he knew the June softness
The warmth surrounding him crackled
Held in by the mansard roof mansion
He glimpsed the shadowy light on last year’s brittle leaves fallen,
Looked over and overlooked, glimpsed by the fall of death,
Winter’s mourning and the May’s renewal.

Delmore Schwartz, “A Dream Of Whitman Paraphrased, Recognized And Made More Vivid By Renoir” 1962
Pierre Puvis de Chavannes, Jovens Raparigas à Beira-Mar, 1879

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Les voleurs d'enfants

Robert Doisneau, La petite fille et l' agent, Paris, 1945

"On peut voler à tout âge;
Le cirque est un cerf-volant.
Sur ses toiles, sur ses cordages,
Volent les voleurs d'enfants.

Volés, voleurs ont des ailes
La nuit derrière les talus,
Où les clameurs maternelles
Ne s'entendent même plus."

excerto de Opéra (1927), Les voleurs d'enfants, de Jean Cocteau

jean cocteau - les voleurs d'enfants

sexta-feira, 13 de julho de 2012

L’ho Perduta, Me Meschina

A ária de Barbarina de As Bodas de Fígaro, de Wolfgang Amadeus Mozart.

L'ho perduta ... me meschina! by Wolfgang Amadeus Mozart on Grooveshark excerto do filme "Kaos" de Paolo e Vittorio Taviani, de 1984

domingo, 8 de julho de 2012

A Torre

A Torre, Thoth Tarot Thoth, de Aleister Crowley

Horas breves de meu contentamento
Nunca me pareceu quando vos tinha,
Que vos visse mudadas tão asinha
Em tão compridos anos de tormento.

As altas tôrres, que fundei no vento,
Levou, em fim, o vento que as sostinha;
Do mal que me ficou a culpa é minha,
Pois sôbre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com brandas mostras aparece:
Tudo possível faz, tudo assegura;
Mas logo no melhor desaparece.

Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem, que desfalece,
Um bem aventurar, que sempre dura.

Luís de Camões

sábado, 7 de julho de 2012

Canção de Seikilos

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Perfeição

Vejo a Perfeição em sonhos ardentes,
Beleza divina aos sentidos ligada,
Cantando ao ouvido em voz olvidada
Que do peito irrompe em raios candentes

Que não posso prender. Seu cabelo vem
P'lo peito inocente onde, confundidos,
O ideal e o real são tecidos
E algo de alegre que ao céu fica bem.

Então chega o dia e tudo passou;
A mim regresso em dorido sentir,
Qual marinheiro que o naufrágio acordou

Do sonho de um campo em dia luminoso:
Ergue a cabeça e estremece ao ouvir
O rumor da descida ao abismo penoso.

Alexander Search, in "Poesia"

Sheila Metzner

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ícaro

“Never regret thy fall,
O Icarus of the fearless flight
For the greatest tragedy of them all
Is never to feel the burning light.”

Oscar Wilde

Odilon Redon - Ícaro

sábado, 23 de junho de 2012

Inauguration of the Pleasure Dome

Inauguration of the Pleasure Dome é um filme de Kenneth Anger, de 1954. Existem outras duas versões, uma de 1966 e outra do fim dos anos 70. De acordo com o próprio Kenneth Anger, a expressão "pleasure dome" surgiu de um poema de Samuel Taylor Coleridge, chamado Kubla Khan. A banda sonora da edição original é uma perfomance completa da Missa Glagolítica, do compositor tcheco Leoš Janáček (1854 – 1928). Do elenco fazem parte a autora Anaïs Nin, no papel de 'Astarte'; Marjorie Cameron, no papel de 'The Scarlet Woman'; o cineasta Curtis Harrington, e também o próprio Kenneth Anger.

in Wikipedia

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Libera Me

“But this is human life: the war, the deeds,
The disappointment, the anxiety,
Imagination’s struggles, far and nigh,
All human; bearing in themselves this good,
That they are still the air, the subtle food,
To make us feel existence, and to shew
How quiet death is."

John Keats, Endymion, Livro II, l.153-159


Libera Me by Jocelyn Pook on Grooveshark

sábado, 16 de junho de 2012

Vanitas

I am dead, but it's not so bad. I've learned to live with it.

Isaac Marion, "Warm Bodies"

William Strang (1859-1921) - série "Doings of Death" 1901























Um dia mais passou e ao passar
Que pensei ou li, que foi criado?
Nada! Outro dia passou desperdiçado!
Cada hora já morta ao despontar!

Nada fiz. O tempo me fugiu
E à Beleza nem uma estátua ergui!
Na mente firme nem credo ou sonho vi
E a alma inútil em vão se consumiu.

Então me caberá sempre ficar
Qual grão de areia na praia pousado,
Coisa sujeita ao vento, entregue ao mar?

Ah, esse algo a sofrer e a desejar,
Inda menos que um ser inanimado
Sempre aquém do que podia alcançar!

Alexander Search, in "Poesia"


Vanitas, Jeffrey W. Wall, 1999

terça-feira, 5 de junho de 2012

Servetta Muta


A Moretta ou Servetta Muta (criada muda) era uma máscara oval, de veludo preto, usada pelas damas de Veneza. Esta máscara, exclusivamente feminina e segura, através de um botão, pelos dentes da frente, impunha à mulher um silêncio forçado.

Exibição de um Rinoceronte (1751), de Pietro Longhi

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Wandering Star

terça-feira, 29 de maio de 2012

Como o Sol

"Retirou-se, tentando não olhar para ela, como se ela fosse o sol, mas vendo-a, como ao sol, sem sequer olhar."

Leo Tolstoi, Anna Karenina


Elizabeth Taylor em Doutor Fausto - 1967





quarta-feira, 23 de maio de 2012

Behold, we know not anything

Behold, we know not anything;
I can but trust that good shall fall
At last-far off-at last, to all,
And every winter change to spring.

So runs my dream: but what am I?
An infant crying in the night:
An infant crying for the light:
And with no language but a cry.

Alfred Lord Tennyson, In Memoriam


Hugo Simberg, Anjo Ferido

domingo, 20 de maio de 2012

Lição de História de Arte



Quantas pinturas identificou correctamente?

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Nocturno

James Abbot McNeill Whistler, Nocturne in black and gold, the Falling Rocket, c. 1875


“How sweet the moonlight sleeps upon this bank!
Here we will sit and let the sounds of music
Creep in our ears: soft stillness and the night
Become the touches of sweet harmony.
Sit, Jessica. Look how the floor of heaven
Is thick inlaid with patines of bright gold.
There’s not the smallest orb which thou behold’st
But in his motion like an angel sings,
Still quiring to the young-eyed cherubins.
Such harmony is in immortal souls;
But whilst this muddy vesture of decay
Doth grossly close it in, we cannot hear it.”

O Mercador de Veneza, William Shakespeare
Lorenzo, V.I. 62-73

domingo, 13 de maio de 2012

Eternidade

"From my rotting body, flowers shall grow and I am in them and that is eternity." 
Edvard Munch


 
Dolls, de Takeshi Kitano, 2002

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Amigo! Amigo!...

August Bromse - Paraíso Perdido 1902


















Lembras-te do jardim irreal e triste?
Do lago onde boiavam peixes de jade?
Existe ainda esse jardim irreal e triste?
Para voltar sempre parece tarde.

Dormias como um deus sobre anénomas brancas:
Como eras tão jovem, tão simples, tão claro!...
Teu rosto e tuas mãos eram anénomas brancas.
Só a memória guarda o teu retrato.

Que fizemos do nosso único momento?
Do grande? do verdadeiro, do exacto?
Agora o que há entre nós não tem momento;
Está fora do tempo e do espaço.

Maria Manuela Couto Viana

in As Folhas de Poesia Távola Redonda, Boletim Cultural VI Série Nº11 Outubro de 1988, Fundação Calouste Gulbenkian

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Nocturno do morro do encanto

August Bromse - Life Escaping - série "The Girl and Death" 1902


Este fundo de hotel é um fim de mundo!
Aqui é o silêncio que tem voz. O encanto
Que deu nome a este morro põe no fundo
De cada coisa o seu cativo canto.

Ouço o tempo, segundo por segundo.
Urdir a lenta eternidade. Enquanto
Fátima ao pó das estrelas sitibundo
Lança a misericórdia do seu manto.

Teu nome é uma lembrança tão antiga,
Que não tem som nem cor, e eu, miserando,
Não sei mais como o ouvir, nem como o diga.

Falta a morte chegar... Ela me espia
Neste instante talvez, mal suspeitando
Que já morri quando o que eu fui morria.


Petrópolis 21-3-1953

Manuel Bandeira

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Dust to Dust

domingo, 29 de abril de 2012

La vida breve

sábado, 28 de abril de 2012

Lembrança

Music, when soft voices die,
Vibrates in the memory,
Odours, when sweet violets sicken,
Live within the sense they quicken.

Rose leaves, when the rose is dead,
Are heaped for the beloved’s bed;
And so thy thoughts, when thou art gone,
Love itself shall slumber on.

Percy Bysshe Shelley


Frantisek Drtikol c.1920
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